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PhiLiz Space

9/15/2009

Burzum - Filosofem

Burzum - Filosofem

Introdução
Qualquer análise séria ao que hoje, retrospectivamente, se considera o "movimento" norueguês de Black Metal (num sentido puramente musical) tem que passar pela exaustiva compreensão do que Burzum representou endogenamente para esse mesmo "movimento" e mais tarde, para o Black Metal em geral. Desnecessária e bem menos interessante é uma retrospectiva em relação aquilo que aconteceu com o homem por detrás de Burzum: o homicídio e restantes crimes alimentaram (e continuam a alimentar) imaginários e espaços bem menos nobres do que a criação artística de Varg Vikernes e por muito que isso satisfaça algumas mentes, não é, seguramente, o que mais interessa na vida de Varg e sobretudo no universo que rodeia Burzum.

Assim, bastante para além dos mundanismos, surge a obra seminal e essencial de Burzum. Quando Filosofem foi lançado já Varg Vikernes cumpria a sua pena pelo assassínio de Euronymous assim como pelo envolvimento nos incêndios de quatro igrejas norueguesas. Nessa altura obras como Det Som Engang Var e Hvis Lyset Tar Oss já mostravam claramente (de forma mais obscura já existiam alguns indícios no EP Aske e no álbum homónimo) o caminho de Burzum no que à composição de Black Metal diz respeito. Este facto surge como notório atestar da evolução rápida da criação de Varg na medida em que apesar de terem sido lançados anos depois da sua gravação, os últimos álbuns (no que respeita ao período em que Varg esteve em liberdade) foram gravados com menos de um ano de diferença. No caso de Filosofem, a gravação deu-se em Março de 1993 sendo que o seu lançamento só ocorreria em Janeiro de 1996, quase três anos mais tarde.

Apesar de este atraso ter feito com que o lançamento do álbum (e não a sua gravação) se situe na segunda metade da década de 90 e portanto numa altura em que já várias bandas exploravam os caminhos trilhados pelas bandas escandinavas (particularmente as norueguesas), o impacto de Filosofem é tremendo. Os caminhos explorados por Varg em Filosofem acentuam o que já havia sido feito com os anteriores álbuns e fundam uma série de preceitos que hão-de influenciar de forma decisiva um sem número se tendências dentro do Black Metal. Filosofem estabelece-se como incontornável referência, seja de forma directa como no caso completa criação e moldagem no que concerne ao Ambient Black Metal, ou de forma indirecta como acontece no que diz respeito ao Depressive Black Metal (onde a própria constituição do projecto Burzum é uma influência), passando por um sem número de outras divisões estilísticas dentro do Black Metal onde a vertente atmosférica é importante.



Alinhamento
Versão Norueguesa
01 - Burzum
02 - Jesu Død
03 - Beholding The Daughters Of The Firmament
04 - Decrepitude I
05 - Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte
06 - Decrepitude II

Versão Alemã
01 - Dunkelheit
02 - Jesus' Tod
03 - Erblicket Die Töchter Des Firmaments
04 - Gebrechlichkeit I
05 - Rundgang Um Die Transzendentale Säule Der Singularität
06 - Gebrechlichkeit II

Ano 1996

Editora Misanthropy Records

Faixa Favorita 03 - Beholding The Daughters Of The Firmament

Género Ambient Black Metal

País Noruega

Banda
Varg Vikernes - Todos os instrumentos e Voz


Review
Se há aspecto que sempre esteve inerente à música de Burzum é o poder de expressar emoções de uma forma intimista e poderosa que não raras vezes transforma a audição do projecto numa viagem por mundos que, por muito distintos que sejam, têm como característica comum o facto de se distanciarem imensamente do espaço em que a audição é feita. Em Filosofem, Varg consegue levar este efeito até ao extremo, o mesmo extremo que define o veículo artístico utilizado para simultaneamente criar e percorrer a obra, ou seja, o Black Metal.

A par com este efeito, uma outra sensação presente na quarta obra de longa-duração de Burzum torna-se particularmente importante de destacar, tanto devido à forma como é desenvolvido na obra, como também porque explica muito por detrás do propósito artístico do projecto em si. Filosofem trata-se de uma tentativa (artisticamente tremendamente bem sucedida, diga-se de passagem) de abstracção em relação à dimensão humana da qual é, de alguma forma, "prisioneira". A desumanização em Filosofem não se dá através a supressão emotiva. Dá-se antes pelo transbordo da mesma. As referidas deambulações para fora do espaço e tempo da audição de Burzum prendem-se estreitamente com o facto de os ambientes criados por Varg serem, não só antagonistas do quotidiano habitual, mas sobretudo por projectarem estados de espírito cuja ligação humana é reduzida ao mínimo da inevitabilidade inerente a qualquer criação da espécie. Se em relação ao primeiro aspecto Burzum não é exemplo único (apesar do brilhantismo como é feito ser ímpar), já o segundo aspecto demonstra desde logo uma faceta importante da genialidade desta criação de Varg no que concerne ao objectivo de atingir uma obra artística onde a própria execução da mesma se torne irrelevante. Num aforismo (que não deixa de ser irónico dado o contexto extra-musical e as inúmeras "análises" existentes ao mesmo): a arte pela arte.

É partindo (conscientemente ou não pouco interessa dado o resultado apresentado) desta base que Varg opera nova transformação no universo de Burzum incrementando a presença da vertente Ambient em Burzum. Se é bem verdade que desde o início que Varg inovou no que concerne ao uso de teclados em conjunto com o Black Metal e que sobretudo em Det Som Engang Var e Hvis Lyset Tar Oss, a importância dos teclados para o efeito final destes trabalhos é imensa. Neste campo, Filosofem não é uma mudança técnica em relação ao passado do projecto, mas existe antes um acentuar e um aprofundamento do papel ambiental. Há semelhança dos seus antecessores, segue o caminho da exploração Ambient a par do Black Metal (a presença de faixas somente ambientais é um elo de ligação entre o álbum aqui exposto e os dois que o antecedem), mas aqui dá-se o aperfeiçoamento final da integração entre os dois géneros. Uma faixa como Burzum (mais conhecida como Dunkelheit) elucida sobre esta mudança face a algo como Det Som En Gang Var: ambas as músicas (duas das melhores do género) possuem um uso extensivo de teclados mas ao passo em que na música do álbum Hvis Lyset Tar Oss existe uma sensação de justaposição (de notar que este facto não oferece qualquer tipo de crítica negativa dada a mestria como é feito), a música de abertura de Filosofem dá a ideia de continuidade e progressão simultânea entre os riffs hipnóticos e as batidas da bateria e o trabalho da bateria. Une-os o minimalismo de execução, mas também uma percepção de complementaridade que remete para uma composição simultânea (independentemente de ter sido este o processo composicional) dos elementos mais "tradicionalmente" associados ao BM e da parte Ambient. Nada disto coloca em causa todo o brilhantismo de, por exemplo, uma faixa como Det Som En Gang Var (repito, uma obra-prima de Burzum e simultaneamente de todo o género). A progressão de Burzum não coloca em causa a maturidade e intencionalidade de cada uma das obras passadas. Trata-se de uma "pintura" com diferentes secções e que atingem invariavelmente a excelência.

Precisamente para o nível atingido por Burzum em Filosofem em muito contribui aquilo que será, porventura, a maior qualidade de Varg enquanto músico: uma ímpar capacidade de composição. Como referido, a mestria na fusão dos elementos mais tradicionais do Black Metal com a sonoridade ambiental é um destaque ao qual se junta a capacidade de juntar elementos de execução simples, obtendo um efeito tão poderoso e único. A face mais visível desta qualidade são os riffs que invadem o trabalho que têm tanto de terrivelmente simples como de imensamente belos e assombrosos. Qualquer uma das primeiras três músicas possui riffs que conseguem, não obstante a sua simplicidade, transmitir todo um conjunto de sentimentos com uma intensidade incrível. A dificuldade está precisamente neste ponto: os extremos técnicos - seja extrema simplicidade ou complexidade - podem anular o objectivo a que se propõe pelo que para tal não suceder há que ter uma ideia clara de condução das músicas para não se cair em exageros.

Em Filosofem, atinge-se com perfeição o ponto de equilíbrio. A título de exemplo, a primeira faixa Burzum (Dunkelheit) parece pensada ao pormenor em relação à gestão dos tempos em que a repetição dos riffs é feita. Cada um dos elementos tem um tempo de entrada perfeito e que provoca subtis mudanças de ambiente, impedindo qualquer tipo de enfado: os riffs iniciais introduzem a faixa de forma lenta e sombria, com a bateria a seguir a mesma toada até à entrada do riff principal, ao que se segue os teclados que sublinham de forma perfeita a melodia da guitarra. São sete minutos onde estes elementos são conjugados de forma perfeita com a voz arrepiante de Varg e com algumas mudanças quase imperceptíveis, mas que fazem toda a diferença para que não haja uma repetição excessiva na faixa. No entanto, Varg também varia na forma como faz fluir as faixas, não se centrando simplesmente nos teclados para fazer criar momentos interessantes. A segunda faixa, Jesu Død (mais conhecida pela sua versão alemã Jesus' Tod) é demonstração disso mesmo através de um cortante conjunto de riffs rápidos que é acompanhado pela igualmente furiosa bateria. Neste caso, a própria velocidade dos riffs e cria uma dinâmica que não se torna cansativa durante os mais de oito minutos que a faixa tem. Claro que velocidade por si só não representa nada e Jesu Død é mais um enorme momento sobretudo devido ao riffs memoráveis que compõe a música.

Como já referido, Filosofem constitui-se como uma obra de grande dimensão graças à forma como a simplicidade técnica se transcende em brilhantismo quando tudo está perfeitamente encaixado. As faixas mencionadas atestam da qualidade dos riffs neste trabalho, assim como da forma como os teclados minimalistas sublinham uma atmosfera nostálgica e melancólica. Por outro lado, naturalmente apenas presente na parte Black Metal do álbum, a bateria não tem um papel tão evidente, servindo sobretudo para frisar o tempo das músicas que acaba por variar consideravelmente nas três primeiras faixas. A própria produção acaba por relegar para segundo plano a bateria uma vez que se encontra bastante "enterrada" na parede de som provocada  Ainda assim, o som algo "seco" da bateria é uma das características notórias do álbum, seja nos momentos mais acelerados de Jesu Død ou quando o tempo médio de - por exemplo - Beholding The Daughters Of The Firmament (Erblicket Die Töchter Des Firmaments) é dominante. Há semelhança do que sucede com o baixo (poucas vezes audível durante o trabalho devido à enorme camada de distorção), a bateria limita-se a servir da base para todo o aparato criado pelos elementos que se destacam em Filosofem.

Também com uma colocação bastante "distante" na produção encontra-se a voz de Varg. No entanto, este é um dos elementos mais reconhecíveis e importantes para a caracterização do álbum e sobretudo para o seu estrondoso resultado final. De notar, antes de mais nada, que a voz apresenta-se aqui de forma bastante diferente em relação aos anteriores trabalhos de Burzum. Antes deste trabalho a voz de Varg era um gutural extremamente gritado, bastante único e original para o início dos anos 90 e simultaneamente uma das marcas características da abordagem singular do projecto em relação ao Black Metal. Em Filosofem ainda se conseguem discernir alguns traços da voz gutural mas extremamente aguda que foi dos traços principais dos primeiros trabalhos, mas a produção e a forma como a voz está encaixada no som mudam quase por completo. Usando o pior microfone do estúdio onde o álbum foi gravado, Varg obteve um efeito completamente distorcido e crispado que poucas semelhanças possui em relação a uma voz humana mesmo quando comparado com as vozes torturadas dos primeiros trabalhos ou mesmo em relação ao conceito mais alargado de gutural nos subgéneros mais extremos do Metal. Desta forma, a voz acaba por ser uma continuação do som difuso das guitarras, rasgando a parede sonora com um gutural agonizante que quase parece remanescente de um som Industrial, tal é a forma como a voz soa distorcida. O resultado final desta abordagem é soberbo, retendo grande parte dos sentimentos dolorosos que eram transmitidos com os guturais mais gritados dos álbuns anteriores, ainda que a forma como tal efeito é atingido seja consideravelmente diferente.

Em consonância com a emotividade dos vocais estão as letras do álbum. Em relação ao alcance das mesmas, pode-se dizer que não poderiam ter uma melhor presença que não num trabalho cujo título é Filosofem. Não sendo letras complexas num sentido tradicional do termo, deambulam por um mundo de preocupações existenciais através de relatos de um tempo passado e de paisagens desaparecidas. A imagética naturalista é uma constante e serve tanto de descrição simples (como na parte mais ambiental do álbum), como de plataforma para temas que parecem corroer a imaginação de uma mente em permanente viagem interior. A já referida sensação de viagem dá-se em grande parte devido aos mundos criados pelas letras do trabalho mas que mais do que remeterem de forma literal para um conjunto de imagens, se tratam de metáforas para um transporte que ocorre sobretudo interiormente porque esta é sobretudo a travessia que interessa ao "filósofo". Neste campo, a primeira parte do álbum oferece a porção mais conseguida de Filosofem uma vez que a parte exclusivamente Ambient tem uma abordagem mais directa e menos profunda no campo lírico.

Assim, a primeira faixa auto-intitulada Burzum (mas "popularizada" como Dunkelheit) possui um misto de imagética naturalista e um certo tom pagão que se acaba por surgir de forma mais clara na segunda parte do álbum. Não sendo a temática mais interessante do álbum, acabam por resultar muito bem em toda a faixa, nomeadamente no momento quase falado que acaba por surgir na última metade da faixa. Segue-se Jesu Død (de novo mais conhecida pela versão alemã: Jesus' Tod) com uma descrição negra da figura de Cristo. "A morte de Jesus" representa o nazareno de forma pouco usual, não como uma figura de paz e tranquilidade mas como uma figura negra e sombria. Mais do que um ataque gratuito à pessoa de Cristo, trata-se de uma retratação que se foca no lado oculto e sobretudo humano de alguém cujo sofrimento e dor se sobrepõe claramente à sua tradicional "reputação", ainda que tal seja escondido.
No entanto, e sem qualquer desprimor pelas mencionadas letras, o melhor momento neste campo em Filosofem (e em toda a discografia do projecto) encontra-se na terceira faixa, Beholding The Daughters Of The Firmament (Erblicket Die Töchter Des Firmaments). Uma interrogação existencial invadida de melancolia e solidão, de uma alma em permanente convulsão interrogativa provocada pela noção de desconhecimento e vazio face à sua existência. Nada mais perfeito para sintetizar a força emotiva de Filosofem do que a "magnum opus" lírica de Varg:

I wonder how winter will be
With a spring that I shall never see
I wonder how night will be
With a day that I shall never see
I wonder how life will be
With a light I shall never see
I wonder how life will be
With a pain that lasts eternally
In every night there's a different black
In every night I wish that I was back
To the time when I rode
Through the forests of old
In every winter there's a different cold
In every winter I feel so old
So very old as the night
So very old as the dreadful cold
I wonder how life will be
With a death that I shall never see
I wonder why life must be
A life that lasts eternally
I wonder how life will be
With a death that I shall never see
I wonder why life must be
A life that lasts eternally


Por motivos naturais, as três primeiras faixas acabam por ser as que merecem uma atenção maior quando Filosofem é abordado de uma forma mais compartimentada e focando-se essencialmente na sua vertente ligada ao Black Metal. Compreende-se este aspecto na medida em que as faixas seguem a linha do BM que Varg aprimorou e seguem uma linha que acaba por ser mais natural dentro do género. No entanto, há que mencionar que sem Decrepitude e Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte, Filosofem não atingiria patamares e ambientes que combinam perfeitamente com aqueles presentes nas primeiras faixas. Decrepitude será, talvez, a mais perfeita integração da vertente Ambient com o Black Metal o que torna a sua primeira versão (quarta faixa) numa passagem perfeita para a longa parte ambiental e a sua versão instrumental (última faixa do álbum) num fecho condizente para um álbum que consegue unir de forma sistemática as duas sonoridades dominantes (embora as referidas faixas tenham um sentimento mais pertencente à primeira esfera ambiental do que ao BM). No meio das duas, surge a monstruosa Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte, a única peça puramente ambiental do trabalho. Percorrida por uma melodia simples e hipnótica, a música vai flutuando longamente pelas suaves notas sintetizadas que percorrem a música por mais de vinte e cinco minutos (um quarto do álbum, aproximadamente). Ainda que possa não fazer sentido de um ponto de vista individual, a quinta faixa fornece a viagem de relaxamento e descompressão perfeita quando se ouve o álbum como um todo, sobretudo devido à forma como contrasta com a emotividade extrema que é presenciada na primeira metade do álbum.

Se é verdade que a compreensão de Filosofem enquanto obra passa obrigatoriamente pela segunda metade do álbum, é inegável que os três clássicos que iniciam o trabalho valem muito por si próprios. A hipnótica Burzum (a primeira faixa escrita por Varg em Agosto de 1991 ainda com a designação de Uruk-Hai) é um dos momentos incontornáveis em todo o movimento norueguês, pelas razões já largamente mencionadas e pela forma como simboliza todo o conceito de Ambient Black Metal. Da mesma forma, Jesu Død lembra algum do trabalho mais rápido de Varg e constitui-se como outra obra-prima, ainda que de uma forma distinta das outras duas faixas mais lentas, o que prova a capacidade de Varg de compor temas de enorme qualidade, com considerável variedade entre si. Depois destes dois monumentos, a terceira faixa é uma "overdose" emocional de sentimentos melancólicos e profundos. Devido a estas características, Beholding The Daughters Of The Firmament acaba por ter óbvias influências em vertentes como o Depressive Black Metal sendo que a sua influência só é ultrapassada em matéria de importância pelo facto de ser o momento alto num álbum que nunca sai de um patamar de excelência.

Um paradoxo em forma de obra de arte, onde a simplicidade quase inocente dos meios contrasta largamente com tudo aquilo que é atingido pela experiência que vai, obviamente, muito além da sua execução per se. As emoções atingidas e os "lugares" são um reflexo de um álbum que "filosofa" através da obra musical por temas cuja complexidade e profundidade retractam uma jornada interior que se processa permanentemente.

Conclusão
Filosofem trata-se de um trabalho visionário e único que acaba por entrar na categoria restrita de obras claramente à frente do seu tempo. No entanto, a sua imortalidade atesta-se pelo facto de não ser mera influência cronológica, mas sim por possuir uma qualidade que o destaca dentro do subgénero de Black Metal que acabou por influenciar. Não é só o facto de surgir antes de toda a gente no campo do Ambient Black Metal: trata-se de ser uma referência no mesmo porque possui um pioneirismo suportado por uma qualidade composicional que não é atingida por muitos trabalhos.

Há semelhança do que acontecera no passado com os primeiros lançamentos de Burzum, a criação de Varg lançada em 1996 constitui-se como mais uma demonstração de excelência de Burzum. Não como um isolado momento de grandeza, mas como mais uma prova sistemática de como Burzum se constitui como banda seminal do Black Metal moderno em várias das suas vertentes, mantendo-se ao mesmo tempo actual e não valendo apenas pela ideia "curiosa" de clássico... e sobretudo fazendo-o através de uma série de lançamentos onde é muito complicado encontrar momentos abaixo do patamar de grandiosidade.

Acima de tudo uma obra total que usa o Black Metal como instrumento para deixar fluir uma experiência que transforma a audição numa das melhores formas de visitar caminhos onde o sentimento niilista impera, não de forma puramente destrutiva mas numa perspectiva de constante indagação perante tão funesta existência.

PhiLiz
2/5/2009

Type O Negative - October Rust

Type O Negative - October Rust

Introdução
A unicidade que caracteriza e define Type O Negative (seja no âmbito musical ou fora dele) faz com que a exploração do universo da banda seja uma tarefa hercúlea sobretudo na gestão das inúmeras sensibilidades do colectivo americano (particularmente a humorística). Uma pequena escorregadela e o ridículo toma conta da situação... e quanto a isto, um pequeno vislumbre na personalidade da banda (e em especial do gigante Peter Ratajczyk, mundialmente conhecido como Peter Steele) permite compreender a razão pela qual tantos mal-entendidos (quase sempre ridículos) surgiram (e ainda surgem) em relação à banda de Brooklyn.
A banda é conhecida por incluir nas letras (e não só) doses industriais de humor negro, referências em relação a algumas polémicas que os envolvem (geralmente de forma humorística mas bastante incisiva) e pela corrosibilidade de várias afirmações. Assim, a ironia e o sarcasmo são peças fundamentais no repertório da banda (sejam em letras ou noutro tipo de contactos com o público) e como tal a falta de cuidado (sobretudo quando a banda se tornou mais conhecida) na interpretação de alguns aspectos de Type O Negative (ou mesmo na própria atitude por detrás da banda) faz com que surjam muitas situações hilariantes dada a falta de "perspicácia" de alguns "intérpretes" do universo de TON... claro que isto é capitalizado pela banda o que geralmente só faz aumentar, ainda mais, o absurdo de tais interpretações.

Paradigmático de tudo o que disse anteriormente são os primeiros anos de Type O Negative e estende-se, no caso de Steele, até a Carnivore (banda de Thrash Metal/Crossover em que o vocalista/baixista esteve antes de Type O Negative). O uso de léxico associado a ideologias nazis na faixa Der Untermensch de Slow, Deep And Hard (ainda que de forma figurada uma vez que a letra denota uma visão geralmente partilhada pela direita conservadora americana no que concerne ao "Welfare State" e não se refere ao ideal racial), declarações incendiárias (ainda em ligação com a música mencionada), acusações de machismo (o facto do primeiro álbum retratar a traição de uma namorada de Peter Steele de forma bastante agressiva - ainda que humorística - levou a acusações de Misoginia) e diversos episódios que vão desde o surreal ao imensamente cómico. Um deles envolve o segundo álbum da banda, um falso álbum ao vivo em que a banda adicionou efeitos para dar a sensação de que tinha sido gravado ao vivo, sendo que existem alguns cânticos bastante desrespeitosos para com a banda como "You suck! You suck!" propositadamente adicionados... para efeitos burlescos, claro. Igualmente a capa segue a mesma linha de humor com a imagem extremamente próxima do ânus do vocalista/baixista, Peter Steele... dai o nome do álbum: The Origin Of The Feces (Not Live At Brighton Beach).

Claro que tudo isto foi prontamente aproveitado pela banda e em diversos campos. Em 1993 a banda lança o seminal Bloody Kisses que lança definitivamente TON para o mainstream. O sucesso de temas como Black No. 1 (Little Miss Scare-All) (satírica perfeita a vários estereótipos da cultura gótica) e Christian Woman (a presumível história de uma freira com um peculiar tipo de "desejos") levou a banda à ribalta (até um pouco fora do mundo Metal) e deu à Roadrunner Records os seus primeiros discos de ouro e platina. Juntamente com estes temas estavam músicas com o tradicional humor da banda: Kill All The White People e We Hate Everyone eram caricaturas de todas as controvérsias, nomeadamente aquelas em que eram acusados de serem racistas.

Bloody Kisses, no entanto, foi importante - acima de qualquer outra coisa que possa surgir - por ter representado uma demarcação sonora evidente do passado da banda. O primeiro trabalho de estúdio de TON já tem alguns elementos diferentes do tradicional som de Carnivore (embora inicialmente fosse suposto ser um álbum de Carnivore) com mais inclusões nos terrenos do Doom (embora, de novo, Carnivore também tivesse passagens mais arrastadas), mas foi na proposta de 1993 que surgiu o som característico do Gothic Metal de Type O Negative, o que representou um avanço considerável no género. Tirando a mencionadas Kill All The White People e We Hate Everyone (que são tendencialmente mais viradas para o Thrash e Punk), o resto do álbum é muito mais semelhante à obra aqui em questão, October Rust.
Assim, além de uma confirmação inegável da direcção da banda em relação ao Gothic Metal, o terceiro álbum de originais (não contando a paródia de The Origin Of The Feces...) representa o paradigma do Gothic Metal moderno (apesar de ter muito mais para oferecer que apenas o tradicional do estilo) e mais um importante momento num género cuja fundação e delimitação estética muito deve aos desgraçados vindos de Brooklyn.



Alinhamento
01 - Bad Ground
02 - Intro (Untitled)
03 - Love You To Death
04 - Be My Druidess
05 - Green Man
06 - Red Water (Christmas Mourning)
07 - My Girlfriend's Girlfriend
08 - Die With Me
09 - Burnt Flowers Fallen
10 - In Praise Of Bacchus
11 - Cinnamon Girl
12 - The Glorious Liberation Of The People's Technocratic Republic Of Vinland By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa
13 - Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]
14 - Haunted
15 - Outro (Untitled)

Ano 1996

Editora Roadrunner Records

Faixa Favorita 08 - Die With Me

Género Gothic Metal

País EUA

Banda
Johnny Kelly – Bateria*
Josh Silver – Teclado
Kenny Hickey – Guitarra
Peter Steele (Peter Ratajczyk) – Voz, Baixo

*Nota: Apesar de ser creditado como no álbum, toda a bateria do álbum foi programada.


Review
Numa visão periférica, October Rust apresenta-se como um perfeito e modelar álbum dentro do que é o Gothic Metal. O referido género "sofre" uma influência enorme de TON, seja a nível directo (para diversas bandas que seguiram o paradigma criado), seja na criação de uma série de características que ou não existiam anteriormente (e aqui podemos definir Bloody Kisses como o início do som "típico" de Type O Negative, pelo menos no que ao Gothic Metal diz respeito) ou não tinham a mesma desenvoltura que a banda de Type O Negative lhes deu.
No entanto, o trabalho não se confina a ser um modelo de um género específico (apesar de representar esse papel na perfeição, como já foi dito). Isto acontece por dois motivos: em primeiro lugar devido às inúmeras influências externas que a banda ainda denota nalguns momentos e ainda que as mudanças sejam mínimas (muito menos bruscas que no álbum anterior) há incursões noutros subgéneros (quando o som se torna mais lento e pesado há uma clara vibração mais ligada ao Doom Metal e ao contrário quando existem momentos mais virados para o Gothic Rock nas músicas mais acessíveis como o clássico My Girlfriend's Girlfriend); em segundo lugar, porque a própria identidade da banda é bastante única e transcende em vários planos (especialmente o lírico) o próprio género em que a banda mais se insere. Já para não falar na qualidade intrínseca do trabalho que o torna um álbum essencial de Goth Metal, não apenas mais um entre muitos ou numa situação em que é valorizado puramente pelo facto de ter surgido pelas mãos de uma banda pioneira no mencionado género.

Percebe-se logo aos primeiros segundos do álbum (literalmente) que a banda tem uma forma de estar (na música em geral) bastante própria e "característica", nomeadamente no que ao humor diz respeito: a primeira faixa (Bad Ground) são quase quarenta segundos de ruído que dá a sensação do CD estar riscado o que fez com que algumas pessoas tentassem devolver o CD sem perceber que era suposto ser assim devido à partida da banda... É de pensar que a seguir a este momento a banda iria começar a levar as coisas mais "a sério", no entanto essa assumpção logo se mostra errada já que na segunda faixa (que não tem título) temos a banda a gozar com a partida anterior, a apresentar os membros (Peter, Johnny, Kenny e Josh) e depois a agradecerem o facto de o ouvinte ter comprado o álbum. Na mesma linha, a última faixa (também sem título) tem o vocalista/baixista Peter Steele a desejar que a audição não tenha sido demasiado desapontante ("I hope it wasn't too disappointing")...
O resto do álbum é mais "limpo" destes momentos (entenda-se que isto não se refere ao humor negro que está, felizmente, sempre presente) se bem que ainda há referência a uma das paródias mais conhecidas da banda, "People's Technocratic Republic Of Vinnland", uma área imaginária algures entre o Canadá e os EUA (na verdade no nome vem de Vinland, nome dado pelos Vikings a uma zona inserida no que hoje é o Canadá) de onde a banda clama ser e cujo presidente é... Peter Steele. A faixa com o pomposo nome de The Glorious Liberation Of The People's Technocratic Republic Of Vinnland By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa é pouco mais de um minuto a retratar a "libertação" dessa república imaginária com sons bélicos em forma de marcha militar.

Contundo, não se pense que o tom geral do álbum é o divertimento leviano. Bem pelo contrário, o álbum tem vários momentos de negatividade que cobrem estados como a depressão, o luto ou a suave melancolia, sendo que este último aspecto que poderá muito bem ser o pano de fundo dominante do trabalho na sua tentativa de retratar os dias de prostração que invadem o Outono. Muita desta flutuação de sentimentos e estados de espírito é responsabilidade dos teclados quase omnipresentes de Josh Silver que são uma das principais linhas condutoras de todo o trabalho, com um som bastante distinto e equilibrado entre os vários ambientes criados pelo teclado. Silver varia entre uma série de técnicas que não só conferem ao álbum uma riqueza maior, como provam que se está na presença de um dos mais talentosos e criativos teclistas dentro do género... e não me refiro apenas ao Gothic Metal em particular.
Alguns dos sons mais reconhecíveis de October Rust são as introduções das mais conhecidas faixas do álbum (muito por causa do trabalho de sintetizadores que contém) como My Girlfriend's Girlfriend ou a tremenda balada Love You To Death, ambas com um espantoso trabalho de teclados seja pelo som único que têm, seja pela predominância que têm na música. No caso de My Girlfriend's Girlfriend (uma música sobre um afortunado triângulo amoroso em que o vocalista/baixista Peter Steele se vê envolvido), são os teclados muito ao estilo da segunda do Gothic Rock que dão à música um apelativo muito especial e tornam a música numa das mais conhecidas músicas de TON.
A par das introduções e dos solos, temos o lado mais atmosférico dos teclados, que geralmente coincide com as alturas em que a banda soa mais próxima do Doom (como acontece na épica Haunted) o que incute uma certa soturnidade às faixas. Além da referida Haunted (que é uma referência óbvia), a hilariante frase do refrão de Be My Druidess é acompanhada de alguns dos mais sinistros teclados de todo o álbum e o mesmo se pode dizer para a penosamente realista Red Water (Christmas Mourning).

Além destes apontamentos, é de referir que muita da riqueza do álbum a longo prazo se deve à mestria de Silver mesmo nos momentos em que os teclados não são predominantes ou nem sequer aparecem em pano de fundo. Existem subtis incursões dos teclados em momentos chave do álbum que enfatizam determinado som (muitas vezes até outros elementos como a guitarra ou a voz de Steele) e que são instrumentais para o sentimento que a banda pretende recriar. Depois de tudo isto, Josh Silver também foi o responsável pela programação da bateria (bem como co-produziu o álbum com Peter Steele) que, ao contrário do que os créditos dizem atribuindo-a ao baterista Johnny Kelly, foram inteiramente programados em estúdio. Em relação a este aspecto não há muito a dizer, não só porque quase não se nota que a bateria é programada (que é o que interessa, já que ninguém estaria à espera de brilhantismo com programação da bateria) mas também porque é um elemento que não grande importância no álbum (provavelmente de forma propositada devido ao que foi referido).

Ainda no campo da produção é de destacar a forma como todo o álbum está bem construído no que diz respeito ao balanceamento do binómio peso/melodia. Apesar de os teclados serem de uma clara importância (e a forma como são usados dão um aspecto mais melodioso e calmo a todo o álbum), o peso das guitarras e do baixo é sempre considerável. Além de tudo soar de forma cristalina (outra coisa não seria de esperar e exigir), tudo tem o seu espaço e tempo para surgir dentro do som, o que é muito positivo dado que sublinha uma das principais qualidades da banda, isto é, a sua qualidade na composição das músicas, nomeadamente nas mais longas como a minha preferida Die With Me onde há uma exaustiva exposição de tudo o que a banda tem de melhor para oferecer.
A produção também mantém o som característico de TON - e que de alguma forma foi cravado definitivamente em Bloody Kisses - embora se notem algumas diferenças em relação ao anterior trabalho. Este aspecto tem a sua materialização sobretudo na forma como a guitarra actua. Kenny continua a desempenhar um papel fundamental no álbum, mas o som da guitarra é mais límpido e tem algumas variações que não eram tão evidentes (ou não existiam de todo) no álbum que precedeu October Rust.
A distorção de guitarra típica de Type O Negative (e que influenciou incontáveis bandas...) está presente mas acaba por ser ligeiramente mais suave. Isto deve-se principalmente ao da distorção ser mais ouvida nos momentos mais arrastados e lentos, o que não acontece assim tantas vezes neste álbum. No geral, as músicas também não são muito pesadas (embora esta constatação só sirva em análise com os álbuns passados da banda, uma vez que é um álbum bastante pesado para o que é normal dentro do Gothic Metal) e daí esta pequena atenuante no som da guitarra. No entanto, isto não quer dizer que Kenny não esteja a altura dos acontecimentos. Algo que é curioso notar é o dinamismo da guitarra que assenta que nem uma luva no som melodicamente poderoso da banda: a guitarra pode, por um lado soar suave e gentil em faixas como Love You To Death ou Die With Me e por outro lado soar obscura e pesada em momentos como Red Water (Christmas Mourning) ou Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]. Da mesma forma, músicas como My Girlfriend's Girlfriend ou Cinnamon Girl (um original de Neil Young sublimemente adoptado ao estilo de Type O Negative), não seriam as mesmas sem os contagiantes riffs saídos dos dedos de Kenny.

O outro representante do campo das cordas é nada mais nada menos que Peter Steele. O membro mais reconhecido da banda tem, naturalmente, um enorme destaque em October Rust. Falando primeiro no seu desempenho como baixista, o que se encontra no álbum é uma tremenda performance de Steele, que ajuda em muito a definir o som profundo e grandioso do álbum. Steele toca com bastante força e energia o que lhe dá um estilo único de execução, seja em que prima musical esteja inserido (o seu trabalho com Carnivore é exemplo desta multiplicidade). Adicionando a isto o facto do baixo ser um elemento com bastante importância no som de TON (e na própria caracterização do mesmo), dá para perceber que Steele é bastante mais do que a face de Type O Negative. É igualmente notável a forma como Steele vai variando o trabalho e imprimindo diferentes tons e texturas nas músicas virtude do seu papel enquanto baixista. Se por um lado temos belas melodias como na balada Green Man, por outro lado temos um trabalho de outra ordem completamente diferente em Burnt Flowers Fallen em que na maior parte do tempo o som é mais acelerado.
Mais do que o destaque nalgum momento em particular (e aqui nem temos um momento como Black Nº1...), o distinto som do baixo de Peter Steele é um bom resumo do que October Rust representa no cômputo geral: refrescante (muito raramente vemos um baixo com esta importância dentro do género... e aqui refiro-me ao género alargado de TON) e imponente nos seus melhores momentos.

Falando em imponência, poucos serão os adjectivos que descrevam melhor que imponente a outra parte da contribuição (mais reconhecível, claro) de Steele no álbum. O álbum é invariavelmente marcado pelos vocais graves (muito graves) e poderosos do gigante vocalista de TON. Porventura o som mais distinto do trabalho (sem desprimor ou relegação para um plano de irrelevância de tudo o resto) é a voz de Steele e isto muito se deve à forma como a voz se consegue destacar de tudo o resto devido ao timbre único do vocalista, sem nunca destruir a coesão das músicas. Isto é particularmente evidente em momentos menos pesados em que a voz de Steele ainda se consegue encaixar de forma perfeita (exemplo paradigmático disto é a já referenciada Cinnamon Girl). No entanto, não se restringe ao descrito até agora: a performance teatral de Steele vai variando entre os graves pronunciados e autênticos uivos que acentuam o lado mais negro de algumas das músicas (e que acaba por ser o sentimento mais predominante do álbum). A excelente balada Love You To Death tem simultaneamente alguns dos graves mais profundos do álbum e alguns dos melhores momentos do timbre mais "vampírico" (que a pronúncia característica do vocalista também acentua) de Steele. Momentos memoráveis como os que surgem no meio de Die With Me não parecem atingíveis (acima de tudo pela unicidade do timbre) por outro vocalista que não Peter Steele.

Tão importante quanto a qualidade vocal de Steele é a qualidade lírica (departamento também a cargo do vocalista) e neste aspecto poderemos dizer que as duas estão a par em termos qualitativos. As letras variam entre temas tão distintos como o amor, melancolia e... erotismo florestal ou o trabalho de um operador num parque público de Nova Iorque. Claro que estes dois últimos temas são extremamente literais mas acabam por ser a prova de como Steele consegue atingir simbiose perfeita entre assuntos mais solenes e doses de humor (negro, preferencialmente) consideráveis. Momentos como o refrão de Be My Druidess mostram bem o contraste entre a solenidade da música (incluindo a voz) e as letras. Numa altura bastante Doom e tenebrosa eis que surge:

I'll do anything
To make you cum...


No entanto, aliado a este momento, nesta mesma música, temos um dos elementos que mais vão surgindo nas letras: o erotismo e a devoção à figura feminina. Um contraste acentuado se olharmos para o primeiro trabalho da banda, mas que ganhou grande relevância em October Rust. Além da mencionada música, baladas como (não tanto por o serem, mas sobretudo pelas letras) como Love You To Death ou Die With Me mostram igualmente esta nova abordagem. A figura feminina é, aliás, a grande fonte de inspiração de Steele para a componente lírica do trabalho visto que, das mais variadas formas (mais sérias ou mais humorísticas), a temática vai sempre surgindo e devido às desventuras de Steele com antigas paixões (aliás, o álbum é dedicado à ex-namorada Elizabeth que também surge no vídeo de Love You To Death) se torna no elemento que mais provoca e inspira o sentimento melancólico que percorre todo o álbum.
É verdade que as letras centram-se fundamentalmente na temática já enunciada, mas temos ainda músicas muito mais fúnebres como Red Water (Christmas Mourning) que descreve o sentimento de perder um ente querido. Steele aborda a questão de forma quase "infantil", mas de forma brutalmente real e quotidiana:

My tables been set for but seven,
just last year I dined with eleven.


Da mesma forma, que quase surge inconscientemente e com uma leve ponta de humor, surge a letra existencialista de Green Man (o nome é referência directa à cor dos uniformes usados por Peter Steele quando trabalhava nos parques públicos de Nova Iorque), que acaba por resumir um pouco todo o conjunto de emoções melancólicas transmitidas pela música e letras do álbum, sendo simultaneamente a melhor letra do álbum:

Sol in prime sweet summertime,
Cast shadows of doubt on my face.

A midday sun, its caustic hues,
Refracting within the still lake.


Sendo um álbum com uma coesão e compatibilidade (características que não equivalem a repetição ou aborrecimento) e sendo o sentimento geral maior do que a soma das (excelentes) partes que o constituem, torna-se complicado destacar algum momento. Porventura músicas como Love You To Death, Green Man e Wolf Moon (Including Zoanthropic Paranoia), pela forma como estão notavelmente compostas, surgem como alguns dos temas mais representativos da majestosidade de October Rust, mas são insuficientes para perceber a qualidade do álbum como um todo. Mesmo uma referência à arrepiante Die With Me (que pessoalmente considero o melhor momento do álbum) seria injusta se não enquadrada com tudo o que o trabalho representa e atinge...

Conclusão
Em October Rust as influências externas foram bastante mais deixadas de lado (pelo menos directamente) e caminhou-se numa direcção mais homogénea. Não querendo com isto dizer que a diversidade vincada que pautava os trabalhos anteriores era um factor negativo (muito pelo contrário), a direcção mais clara do álbum beneficia o resultado final sem o tornar excessivamente formulado ou previsível.

October Rust surge, ironicamente, como um momento de definição para Type O Negative. Ironicamente porque sendo uma obra de retracto emocional de um conceito específico, abrange sensibilidades que não costumam estar associadas a momentos de segurança (mesmo para a definição do som de uma banda). É talvez este sentimento de vulnerabilidade que percorre a obra em tons de melancolia que a tornam - juntamente com a enorme qualidade de execução - tão apelativa e essencial (um clássico pode-se até dizer, alargando o sentido do termo) dentro do estilo em que se insere.

PhiLiz

12/9/2008

Samael - Ceremony Of Opposites

Samael - Ceremony Of Opposites

Introdução
Se há palavra que pode definir genérica mas precisamente a carreira de Samael (formados em 1987), essa palavra é mutação. Não fazendo sequer uma incursão ao que foi lançado pela banda depois de Ceremony Of Opposites (uma vez que ai a mudança é drástica e facilmente verificável) e sendo a análise apenas em relação aos primeiros tempos do conjunto suíço, existe uma clara intenção de experimentar (esta característica manteve-se e acentuou-se bastante nos anos que se seguiram a 1994) novas coisas e expandir o universo musical do grupo com elementos anteriormente não incorporados.

Para se perceber esta dinâmica "mutante" é preciso olhar para os dois álbuns anteriores da banda. Nada mais nada menos que Worship Him e Blood Ritual de 1991 e 1992, respectivamente. Não estamos perante dois trabalhos vulgares. Numa altura em que uma verdadeira revolução se dava a uns bons milhares de quilómetros do território suíço (na Noruega, claro), estes dois trabalhos tornaram-se verdadeiros clássicos do que mais tarde se viria a chamar Segunda Vaga de Black Metal. Expandindo o que os conterrâneos Hellhammer e Celtic Frost (entre outros, claro) haviam feito nos anos 80, os dois primeiros álbuns de Samael tornaram-se verdadeiros clássicos do Black Metal moderno. O mais surpreendente (uma vez que são álbuns habitualmente prezados de forma mais ou menos igualitária) é que são dois trabalhos que em si já encerram algumas diferenças: Worship Him tem bastantes variações entre os tempos rápidos (seja nos riffs, seja na bateria) e algumas passagens mais atmosféricas enquanto que Blood Ritual acentua a toada lenta sem nunca perder o som poderoso e ritualístico da banda. Atendendo a este historial é possível antever mais uma mudança em Samael ainda que sempre dentro do prisma do Black Metal (isto falando apenas o que foi feito imediatamente a seguir com Ceremony Of Opposites, entenda-se).

Na verdade, Ceremony Of Opposites é porventura o último trabalho da banda associado ao que se pode de alguma forma chamar Black Metal "tradicional". Seguindo as pisadas de constante mudança sonora de outra (já mencionada) banda suíça, os seminais Celtic Frost (embora por caminhos totalmente diferentes dos seguidos pela banda de Tom G. Warrior), os Samael enveredaram, após Ceremony Of Opposites, por caminhos mais ligados ao som Industrial (direcção que de alguma forma pode ser vislumbrada neste trabalho de 1994) e maximizaram ainda mais o carácter experimental e ecléctico da banda.
Este facto (ser o último trabalho mais ligado ao BM de Samael) não é por si só razão suficiente para uma atenção especial ao álbum (essas serão descritas na análise ao álbum) mas do ponto de vista do exame evolutivo de uma das bandas pioneiras da Segunda Vaga de Black Metal (ainda antes de alguns dos grandes lançamentos da cena norueguesa) torna-se essencial compreender este trabalho da banda em toda a sua plenitude.



Alinhamento
01 - Black Trip
02 - Celebration Of The Fourth
03 - Son Of Earth
04 - 'Till We Meet Again
05 - Mask Of The Red Death
06 - Baphomet's Throne
07 - Flagellation
08 - Crown
09 - To Our Martyrs
10 - Ceremony Of Opposites

Ano 1994

Editora Century Media

Faixa Favorita 04 - 'Till We Meet Again

Género Black Metal

País Suiça

Banda
Masmiseim - Baixo
Rodolphe H. - Teclado
Vorphalack - Guitarra, Voz
Xytras (Christophe Mermod) - Bateria


Review
Aquando de um contacto inicial com Ceremony Of Opposites há a constatação de duas ideias antagónicas: por um lado é indubitavelmente um álbum de Black Metal, mas por outro lado estamos perante uma execução dentro do estilo "sui generis" e que foge a muito dos "padrões instituídos" para se praticar bom BM. Um "je ne sais quoi" de diferente em relação ao que costuma ser o som mais comum dentro do género.

Penso que isto pode ser explicado por diversos factores mas em termos gerais percebe-se uma aproximação a alguns géneros fora do Black Metal como seja o Industrial. Obviamente que isto não quer dizer que estejamos perante um trabalho de Industrial Black, longe disso. Fazer tal observação seria incorrer num erro de observação (ou de audição se assim for preferido) por exagero. O que se nota é a utilização subtil de alguns elementos que lhe dão uma roupagem diferente dentro do BM mas que não o afastam da linha condutora do género. Em momento algum se ouve algo que não seja BM em Ceremony Of Opposites.
Refiro-me sobretudo à forma como a bateria e os teclados (que muitas vezes utilizam samples) estão misturados e produzidos ou a forma como um dos elementos mais fortes do álbum (os riffs e todo o trabalho de guitarra em geral) é executado, não recorrendo ao habitual tremolo picking mas sim a riffs arrastados e não raras vezes lentos. Por último, em relação a este aspecto do trabalho isto há que destacar também a produção que confere um efeito maquinal e "industrializado" às músicas.
Para sintetizar o porquê deste efeito de estranheza pode-se dizer que a banda arranjou uma maneira interessante e eficaz de integrar diferentes influências sem no entanto por em causa a essência que, por exemplo, Worship Him e Blood Ritual encerram.

Referi a bateria como um dos motores da forma peculiar como o álbum se movimenta dentro do BM mas é muito mais que isso. A forma infernal como Xytras (enorme baterista) se apresenta é um dos grandes destaques do álbum. O poder que emana da percussão do álbum é enorme e por si só digno de registo mas o mais fantástico é a maneira como a bateria soa grandiosa e energética mesmo sendo maioritariamente executada em tempos médios.
Num dos clássicos saídos deste álbum - Baphomet's Throne - a intensidade e energia que são imensas mas o tempo nunca acelera muito. No entanto, a bateria (juntamente com os teclados) dá uma grandiosidade e acutilância que fazem a faixa sobressair.
Além de eficaz e poderoso, o trabalho de Xytras caracteriza-se pela sua complexidade e variação. Os tempos são geralmente lentos (sobretudo se comparados com algumas propostas dentro do Black Metal) mas existem momentos mais rápidos como nalgumas secções de Flagellation e no geral o trabalho é sempre bastante variado. Desde os ocasionais (ainda que raros) blast beats, até aos tempos mais lentos (que acompanham os riffs igualmente menos acelerados como superiormente demonstrado em 'Till We Meet Again) passando pelas introduções em jeito de marcha imperial (como na faixa-título), o trabalho é simplesmente perfeito para criar uma atmosfera quase épica mas acima de tudo muito poderosa e... cerimonial.

A complementar na perfeição o que é criado pela bateria estão os teclados. Neste departamento há uma combinação inteligente entre o uso de teclados sombrios e as samples que durante todo o trabalho se vão ouvindo com alguma frequência. Seja a enfatizar a vibração misteriosa criada pela execução relativamente lenta dos outros instrumentos ou simplesmente a adicionar novas atmosferas aos temas, os teclados têm um papel bastante evidente e importante na condução das músicas.
Não são usados com enorme frequência (até porque um exagero ou um mau uso deste elemento pode tornar-se fatal para um álbum de BM como já foi muitas vezes provado) mas aparecem quase sempre em cada faixa. A incursão já referida por caminhos mais virados para o Industrial tem a sua consubstanciação nos teclados e sobretudo no uso de samples. Faixas como Flagellation perderiam todo o seu ambiente mecanizado se os teclados estivessem ausentes ou porventura usados doutra maneira. Da mesma forma, o uso de samples insere subtilmente (aliás, os teclados resultam bem precisamente porque são usados cirurgicamente) outras texturas a momentos mais atmosféricos como é o caso da última faixa Ceremony Of Opposites.

Um ponto comum a todo o álbum, mas que em relação ao uso dos teclados se torna ainda mais evidente, é a forma como a composição está elaborada e cuidada. Nada parece ser prolongado por demasiado tempo ou acabar cedo demais. Veja-se, para exemplificar este aspecto, a quinta faixa Mask Of The Red Death onde o acompanhamento dos teclados aos riffs é evidente e como inteligentemente toma conta da música antes de se tornar, de novo, numa parte que enfatiza o trabalho de guitarra e baixo... tudo pensado e executado ao pormenor para não parecer demasiado forçado ou enfadonho.

Como não poderia deixar de ser esta última característica que descrevi estende-se ao que é provavelmente o elemento mais importante na condução instrumental do álbum: a guitarra de Vorphalack. Os riffs de guitarra que dominam o álbum são variados, apresentam-se sempre bastante originais e... têm um groove fenomenal. Apesar de não ser um termo conotado com o Black Metal (de todo) não há outra forma de denominar aquilo que invade todo o álbum e compreende-se precisamente porque este não é um Worship Him. Ouça-se o início de Black Trip e percebe-se que há um groove muito próprio em todo o trabalho de guitarra. Escusado será dizer que não é um som comparável ao que geralmente mais está associado com o termo groove...
Na realidade, o que temos neste campo é um som muito próprio criado pelas guitarras brutalmente distorcidas que inundam o álbum. Vamos desde as progressões que criam uma atmosfera densa e negra até aos momentos mais melódicos nalguns refrões (a faixa Son Of Earth é paradigmática deste aspecto) ou simplesmente aos riffs destruidores que acompanham a toada mais maquinal da secção rítmica.
Embora os riffs sejam claramente compostos no horizonte do Black Metal, é possível reconhecer algumas influências de outras formas extremas de Metal como o Death Metal nomeadamente quando se ouvem alguns momentos mais melódicos. Não é algo que seja muito evidente porque a produção, distorção e colocação dos riffs é muito ligada ao BM mas o tal groove que se ouve é muitas vezes devido a estes sons mais próximos do DM.
Para completar todo este panorama há que salientar um dos aspectos que torna este trabalho tão fluído e bem construído: o quão "catchy" é todo o trabalho de guitarra. Para além do som de guitarra ser facilmente relembrado, muitos dos riffs são memoráveis e resultam na perfeição. Assim se compreende que tenham saído deste álbum muitos clássicos da banda como Baphomet's Throne, Black Trip ou Son Of Earth.

A acompanhar a guitarra temos o baixo que apresenta muitas características que se podem verificar na guitarra. A distorção confere à execução de Masmiseim uma enorme relevância, seja a acompanhar as guitarras nos momentos mais pesados, seja a preencher o som de forma ainda mais intensa.
No entanto, o baixo (sempre perfeitamente audível) faz mais do que simplesmente "completar" o que vai sendo feito pelo resto dos instrumentos como se pode notar em Mask Of The Red Death. Embora pontuais existem momentos em que Masmiseim se destaca mais e torna o ataque sonoro ainda mais acutilante e variado.

Para agregar toda esta potência temos, claro, a voz de Vorphalack. Num gutural poderoso e que dá o toque final a toda a energia do instrumental, Vorphalack espalha no álbum uma agressão genuína e acaba por se tornar num dos elementos que mais se destaca.
Sempre num registo muito semelhante, a voz de Vorphalack é profunda mas mantém a rispidez que caracteriza os vocais do Black Metal. A forma como a voz consegue ser preponderante face a um registo instrumental tão poderoso (que requer uma voz igualmente poderosa para resultar bem) é um mérito da produção mas também da forma como Vorphalack aborda a questão da colocação de voz. Mais do que uma vocalização musical temos um registo quase recitado em que o vocalista vai declamando as (excelentes) letras como se de ensinamentos se tratassem. Isto resulta muito bem: quer do ponto de vista musical pela forma como se conjuga com tudo resto, quer pela forma como se integra com a idiossincrasia das próprias letras. Cria-se assim uma atmosfera que está em consonância com o nome do álbum: uma verdadeira cerimónia.

Em relação à parte lírica esta é na maior parte das vezes excelente. Digo na maior parte das vezes e não sempre porque existem (muito poucos) momentos que caem demasiado nos clichés ou não resultam porque a linguagem agressiva se torna demasiado absurda. Son Of Earth ou To Our Martyrs sofrem deste mal, não obstante a primeira ser uma das melhores faixas do álbum. Contudo, estes pequenos "acidentes" não devem ofuscar todo o restante conteúdo lírico que é de elevada qualidade. As letras que lidam com os temas religiosos do ponto de vista filosófico fazem-no de uma perspectiva mais ateísta que nos álbuns anteriores (Worship Him é auto-esclarecedor) embora ainda se verifiquem referências mais viradas para o Satanismo (apenas na sua vertente mais teísta, ressalve-se). Algumas temáticas como o sofrimento pessoal (aqui visto de uma forma guerreira e não como forma de auto-comiseração) também são abordadas de forma inteligente como se pode verificar em Crown: "Into pain, I exist/And if my brain is numbed/The thorn in my flesh/Can overcome apathy".

Todos os elementos descritos anteriormente acabam por estar em cada uma das faixas. No entanto, é raro as "peças" estarem dispostas da mesma maneira o que providencia uma dinâmica que permite ao álbum uma longevidade maior sem se tornar demasiado formatado.
A produção também ajuda na forma como o álbum não se esgota: sendo (a produção) bastante polida ajuda a ir descobrindo novos detalhes em cada faixa e torna o álbum "agradável" (com as ressalvas em relação ao gosto de cada um pela banda e género em questão) de ouvir ainda para mais quando este tem verdadeiros hinos de BM como: Black Trip, Baphomet's Throne, 'Till We Meet Again (melhor faixa do álbum) ou a faixa-título cujos teclados finais encerram na perfeição esta "cerimónia".

Conclusão
Os Samael nunca foram uma banda convencional. Mesmo nos tempos de Worship Him ou Blood Ritual os ritmos eram mais contidos e dava-se mais ênfase à atmosfera e negritude imprimidas nas faixas. Com Ceremony Of Opposites os suíços dão um passo em frente na exploração de novas texturas embora nesta proposta de 1994 ainda tenham muito do que os fez inicialmente destacar-se.

Ceremony Of Opposites é um dos melhores trabalhos de BM saídos de 1994 (o melhor será provavelmente um tal de De Mysteriis Dom Sathanas), mas acima de tudo uma forte proposta de BM (a última completamente associada ao género por parte da banda) cheia de inteligência e intencionalidade que "usa" elementos estranhos ao Black Metal para engrandecer o género.

PhiLiz
11/16/2008

Alastor – Crushing Christendom

Alastor – Crushing Christendom

Introdução
Os Alastor são uma banda de Black Metal portuguesa, com alguns toques de Speed e que têm em Chrushing Christendom o seu melhor álbum até à data.



Alinhamento
01 - The Return Of Alastor
02 - Spawn Of Evil   
03 - Infernal Power   
04 - Witch Hammer   
05 - Necronomicunt   
06 - The Fall Of God   
07 - Total Devastation   
08 - Black Mass   
09 - Power Thrashing Death

Ano 2000

Editora Barbarian Wrath

Faixa Favorita 09 - Power Thrashing Death

Género Black/Thrash Metal

País Portugal

Banda
JA aka Desecrator (Zé) - Baixo, Guitarra, Voz
Tormentor - Bateria
(Nota: Não há certezas quanto a este ser o alinhamento da banda neste álbum)


(Nota: não corresponde ao alinhamento da banda neste lançamento)

Review
Duas das melhores faixas são sem dúvida Spawn Of Evil e Infernal Power. Rápidas, com grandes riffs e com uma voz cavernosa mas cheia de poder.

Em Witch Hammer e Necronomicunt nota-se a vertente mais Black da banda apesar de ter um ritmo aproximado do Speed.

Total Devestation é uma boa faixa, mas a bateria (tal como em todo o álbum, mas aqui nota-se mais) está bastante mal incorporada.

O melhor para o fim, Black Mass é uma faixa hipnótica com uma batida rápida cheia com riffs e solos alucinantes.

Power Thrashing Death para finalizar em beleza. Não acrescenta nada de novo às restantes faixas no que diz respeito a rapidez ou ambiente, mas é tocada esplendidamente: brilhante final.

Conclusão
Um bom álbum de Black Metal, cheio de espírito dos anos 80, mas que sem dúvida merece ser ouvido, não só por ser uma banda portuguesa, mas também porque o trabalho do guitarrista é de grande nível.

PhiLiz
10/30/2008

Judas Iscariot - The Cold Earth Slept Below...

Judas Iscariot - The Cold Earth Slept Below...

Introdução
Em 1995, a sigla USBM, a ser utilizada, seria uma vazia agregação alfabética sem qualquer consubstanciação musical. Não apenas enquanto ideia colectiva de hipotético movimento musical, mas também porque encontrar, no início dos anos 90, bandas norte-americanas a praticar Black Metal (sem influências exógenas demasiado evidentes, nomeadamente de Thrash e Death Metal) era uma tarefa exequível - desde os anos 80 existiam bandas pequenas com um som ainda mais sujo que Venom como N.M.E., por exemplo - mas extremamente complicada.

Há a famosa imagem de Varg Vikernes a usar uma t-shirt de Von no julgamento do homicídio de Euronymous e de facto esta era uma das poucas bandas a praticar este estilo, cujo contexto e origem, é demarcadamente europeu. No entanto, mesmo Von tinha um som ligeiramente diferente, muito mais ligado ligado à brutalidade e velocidade e menos à atmosfera (principal característica distintiva do Black Metal que se fazia na Europa).
Só mais tarde é que surgem bandas como Krieg (mais tarde e não surpreendentemente membros desta banda haveriam de tocar como músicos convidados em JI) e Black Funeral a praticarem um estilo próximo do ia sendo feito na Noruega. No entanto, tanto Krieg como Black Funeral só surgem em 1995 e 1993, respectivamente, isto é, um pouco mais tarde que JI que inicia as suas actividades em 1992.

Assim sendo, The Cold Earth Slept Below... surge como uma das primeiras demonstrações de (puro) BM norte-americano a ter alguma relevância na cena mundial. Fruto da insistência do fundador e único membro fixo da banda Andrew Jay Harris, mais conhecido pelo seu pseudónimo Akhenaten. À semelhança de grandes nomes do estilo, Judas Iscariot foi predominantemente uma "one-man band". O uso do pretérito deve-se ao facto de JI ter cessado as suas actividades em 2002... mais concretamente a 25 de Agosto desse mesmo ano. Neste caso o dia e mês são bastante importantes para perceber a ideologia por detrás do projecto: Judas Iscariot acabou 102 anos depois da morte do filósofo que mais influenciou o seu mentor, ou seja, Friedrich Nietzsche.

Indivíduo com formação académica na área da Sociologia, Harris sempre se pautou pela integridade que incutida ao projecto, quer a nível ideológico (com persistentes ataques niilistas às religiões organizadas sendo o Cristianismo o foco particular), quer a nível artístico. Exemplo disso é a declaração que explica o fim da banda após 10 anos em actividade.
The Cold Earth Slept Below... mostra o lado mais primitivo e frio da perseverante luta de Akhenaten contra a moral cristã através da sistemática desconstrução niilista aqui traduzida em ódio sonoro.



Alinhamento
01 - Damned Below Judas
02 - Wrath
03 - Babylon
04 - The Cold Earth Slept Below
05 - Midnight Frost
06 - Ye Blessed Creatures
07 - Reign
08 - Fidelity
09 - Nietzsche

Ano 1996

Editora Moribund Records

Faixa Favorita 04 - The Cold Earth Slept Below

Género Black Metal

País EUA

Banda
Akhenaten (Andrew Jay Harris) - Todos os Instrumentos e Voz


Review
Por motivos de honestidade analítica há que dizer logo no início e muito claramente que o Black Metal de Judas Iscariot não é exactamente o que poderíamos chamar de singular. Mesmo atendendo ao ano em que foi lançado, The Cold Earth Slept Below... já denota muitas influências do que outros nomes tinham feito antes.
Neste aspecto surge, de forma algo natural, a referência a Darkthrone. Em 1996 já tinham sido lançados trabalhos como o A Blaze In The Northern Sky e Transilvanian Hunger, e este trabalho de JI vai buscar vários elementos a esses dois marcos do Black Metal moderno.

Não obstante o primeiro álbum de estúdio de Judas Iscariot caminhar em terreno já conhecido, Akhenaten consegue fazer uma interpretação bastante interessante do que havia sido desbravado até então. Não havendo propriamente inovação a nível musical (nem é esse o objectivo de Harris), a unicidade de TCESB advém da atmosfera transmitida. O sentimento niilista é muito forte, não só devido ao conteúdo lírico ou à abordagem vocal, mas porque toda a obscuridade do álbum remete para uma ideia de profundo anti-conformismo para com o mundo envolvente. Se existem semelhanças musicais mais ou menos evidentes com nomes predecessores a JI (Darkthrone, por exemplo), a atmosfera criada é bastante única, quer pelo extremismo da mesma, quer pela forma como as variações (não sendo exactamente original, é um trabalho que varia bastante embora sempre dentro do espectro do Black Metal) vão mantendo sempre o mesmo nível de intensidade.

A música de Judas Iscariot (não somente neste álbum) reveste-se de uma complexidade conceptual que contrasta com a abordagem puramente musical que pode ser ouvida em The Cold Earth Slept Below que é substancialmente mais simples. Está claro de ver que a intenção de Akhenaten não era fazer um álbum tecnicamente complexo, pelo que a questão não se põe em termos de capacidade, mas é interessante olhá-la numa perspectiva contrastante que maximiza o efeito pretendido.
Abordando a produção do álbum é possível vislumbrar esta simbiose: o conteúdo filosófico inerente é na sua génese extremo, quer em complexidade quer em valores (ou se se preferir, na falta dos mesmos...) e a produção bastante minimalista e crua acentua esta mesma atmosfera, fazendo com que o trabalho seja fiel retratador a escrita aforística e poderosa de Nietzsche, a grande inspiração ideológica do projecto. O mundo das ideias (complexo) e o mundo musical (simples) unem-se sob o signo do extremismo da mensagem: a comunicação é cruamente poderosa mas a mensagem assume-se como ambiciosamente complexa.

A produção rude e (propositadamente) pouco "trabalhada" (ou trabalhada exactamente para parecer pouco cuidada...) não mascara algumas passagens mais turbulentas no que diz respeito a um elemento do álbum: a bateria. Se na maioria das vezes a repetição ajuda apenas a manter a atmosfera do álbum, quando se dão algumas passagens mais velozes ou há uma tentativa de imprimir outras dinâmicas, nota-se alguma falta de experiência e habilidade. Não sendo expectável (ou mesmo recomendável) um trabalho de grande perfeccionismo, algumas falhas notam-se um pouco mais do que o devido. Até neste caso (que não é positivo, diga-se claramente) a integridade musical de Harris é denotada, sendo que seria porventura mais "fácil" substituir a bateria real por uma qualquer caixa de ritmos.
No entanto, as pequenas (mas evidentes) falhas na bateria não afectam todo o sentimento geral que o álbum emana pelo que não deve ser visto como algo castrador da fluidez do trabalho. Até porque a bateria surge apenas, como já tinha referido, para dar relevo à atmosfera violenta e odioso de The Cold Earth Slept Below e nesse campo não se podem apontar quaisquer lacunas.

Num plano de bastante maior destaque que a bateria (e que o baixo que é inaudível) encontram-se as estridentes e cortantes guitarras que atravessam todo o álbum. O trabalho é maioritariamente assente em riffs gélidos repetidos várias vezes durante as musicas. O trabalho é simples, mas é possível escutar uma grande variedade no mesmo: existem momentos de Black Metal mais furioso (remanescente do trabalho de Darkthrone em Transilvanian Hunger) como é o caso de Damned Below Judas; passagens mais lentas e com riffs épicos, algo que pode ser encontrado na faixa-título; melodias atmosféricas com um efeito altamente hipnotizante que pode ser ouvidas, por exemplo em Babylon.
O interessante neste aspecto é o facto de quase todas as músicas apresentarem esta diversidade. Não pela mesma ordem nem seguindo sempre o mesmo padrão, o que tornaria a escuta monótona rapidamente, mas várias faixas têm as variações descritas e apesar de pintarem uma paisagem bastante monocromática, fazem-no de uma maneira bastante interessante. Fidelity - uma das melhores faixas do álbum, diga-se - é um dos bons exemplos deste aspecto que The Cold Earth Slept Below apresenta, indo dos caóticos às melodias soturnas e mais lentas.

Com as guitarras a conduzir, o álbum vai-se movimentando em diversos campos dentro do Black Metal com o objectivo de criar uma atmosfera desoladora e vazia em consonância com a filosofia niilista seguida por Akhenaten, onde se constata a falta de valor ou propósito da existência (humana). De facto, esse é o sentimento que enche e percorre o álbum. Mesmo não sendo possível o acesso às letras (tudo o que se pode perceber é através de audição directa), o sentimento de invasão por parte de um enorme vácuo é a mais perceptível característica dos quase quarenta e quatro minutos que compõe o álbum.
Contudo, não se pense que este efeito é atingido calmamente. Como mencionado, existem momentos mais lentos e arrastados, mas a incursão pelo lado mais rápido e agressivo do Black Metal está bem presente e o ódio surge como transporte precisamente para a desolação. Atente-se logo ao início do trabalho com Damned Below Judas onde a primeira palavra vociferada é precisamente: Hatred. Uma declaração de intenções bem directa logo nos primeiros segundos do álbum.

Para completar o ambiente geral do álbum, temos a voz de Harris. As vocalizações são bastante típicas do género (arriscaria até dizer que este é o padrão de voz para o Black Metal moderno): guturais poderosos que, por se encontrarem um pouco enterrados na produção, têm um som abafado e distante, o que enfatiza a atmosfera odiosa e cinzenta do álbum. Não sendo exactamente originais (são bastante na linha do que Nocturno Culto já fazia em 1996), as vocalizações neste primeiro álbum de Judas Iscariot ganham dimensão e destaque muito maior devido à sinceridade por emanada por Akhenaten e pela forma como se encaixam nos riffs arrastados (os vocais resultam melhor nas partes menos rápidas das músicas), criando uma ideia de narração filosófica. A última faixa do álbum, que tem o sugestivo nome de Nietzche, é o melhor exemplo do que acabo de referir, nomeadamente devido à entoação quase profética que os vocais assumem.

Todo o trabalho é bastante homogéneo no seu todo. As variações que referi surgem sobretudo dentro de cada faixa, mas a atmosfera de faixa para faixa é sensivelmente a mesma. Não se esperava outra coisa e é precisamente este envolvimento que o trabalho tem que o torna interessante.
Como já foi amplamente exposto, não se trata de um trabalho original em termos estritamente musicais (embora hoje possa soar ainda menos uma vez que muitas bandas trilharam o mesmo caminho que os antecessores de JI ou do próprio projecto norte-americano) pelo que vale fundamentalmente pela qualidade imprimida ao álbum.
Neste caso em concreto, a mais valia do álbum é conseguir manter a qualidade e interesse por dois motivos: por um lado, há uma envolvência geral muito bem conseguida e que consegue transmitir na perfeição o sentimento niilista que Harris pretende; por outro lado, existem vários momentos (sejam riffs arrepiantes, passagens melódicas de cortar a respiração ou simplesmente instantes de Black Metal executado com o sentimento certo) que por si só se tornam verdadeiros hinos e o melhor é que há muitas alturas em que isso acontece.
Os momentos arrastados e tenebrosos de Damned Below Judas ou Fidelity, os riffs bastante inspirados em Babylon ou no riff principal de The Cold Earth Slept Below e ainda a hipnótica e longa viagem de Nietzsche (tema que de alguma forma se torna no paradigma máximo do trabalho e porventura do próprio projecto), são (por si só) tudo fantásticas demonstrações de como deve ser feito BM, mas quando integrados num álbum com a capacidade de proporcionar um efeito de abstracção exterior para uma maior exploração individualista, tornam-se ainda melhores e transcendem a qualidade intrínseca que cada uma dessas demonstrações teria já por si só.

Conclusão
The Cold Earth Slept Below não é um álbum fundador do género em que se insere, mas é sem dúvida único na sua abordagem temática ao género. Isto confere-lhe uma atmosfera e força únicas, que tornam o primeiro álbum de Judas Iscariot um importante contributo para cimentar o que o Black Metal tem de melhor.
Além disso, foi um começo estrondoso para um projecto que se tornaria numa instituição bastante respeitada no meio em que estava musicalmente inserida, ao longo dos anos em que se manteve activo.

Não é um trabalho de assimilação fácil. Não o pretende ser e isso também é um dos seus pontos positivos. É uma honesta transposição de ideais ditos extremos para música de índole semelhante. Uma recriação poderosa de ideais niilista consubstanciada em três quartos de hora de puro e negro Black Metal. O facto de querer ser "apenas" um trabalho honesto neste campo não o torna menos louvável e admirável, muito pelo contrário.

PhiLiz